História meio ao contrário
Parte I
... E então eles se casaram, tiveram uma filha linda como um raio de sol e viveram felizes para sempre...
Tem muita história que acaba assim. Mas este é o começo da nossa. Quer dizer, se a gente tem que começar em algum lugar, pode muito bem ser por aí. Vai ser a história da filha desses tais que se casaram e viveram felizes para sempre. E a história dos filhos começa mesmo é na história dos pais. Ou na dos avós, bisavós, tataravós ou requetatatataravós - se alguém conseguir dizer isso e se lembrar de todas essas pessoas.
Bom, tem alguém que lembra. Índio lembra. Em muitas tribos, pelo menos. Quando chega a noite e todo mundo se junta em volta da fogueira, muitas vezes os mais velhos ficam contando as histórias de todos os antepassados: avós, bisavós, todos esses que vieram antes, até chegar a vinte. De todos eles, cada índio tem que saber pelo menos duas coisas - onde está enterrado o umbigo e onde está enterrado o crânio. Quer dizer, onde o bebezinho nasceu e onde depois a pessoa morreu.
Mas isso é coisa de índio. Homem branco hoje em dia não liga mais para essas coisas. Prefere saber escalação de time de futebol, anúncio de televisão, capitais de países, marcas de automóveis e outras sabedorias civilizadas. Você sabe a história dos seus pais? E dos seus avós? E dos seus bisavós? Eu também não sei muito não. Mas quando não sei invento.
Gosto muito de inventar coisas. Por isso não sou muito boa contadeira de histórias. Fico misturando as coisas que aconteceram com as inventadas. E quando começo a conversar vou lembrando de outros assuntos, e misturando mais ainda. Fica uma história grande e principal toda cheia de historinhas pequenas penduradas nela.
Tem gente que gosta, acha divertido. Tem gente que só quer saber de histórias muito exatas e muito bem arrumadinhas - então é melhor mudar de história, porque esta aqui é meio atrapalhada mesmo e toda ao contrário. Ela nem começou direito e já apareceram aí em cima uns índios que não têm nada a ver com história. Mas é que eu gosto muito de índios e piratas (por isso adoro a história de Peter Pan) e toda hora eu lembro deles.
Mas vamos começar de novo pelo começo.
Ou pelo fim, que esta história é mesmo ao contrário.
... E então eles se casaram; tiveram uma filha linda como um raio de sol e viveram felizes para sempre.
Eles eram um rei e uma rainha de um reino muito distante e encantado. Para casar com ela, ele tinha enfrentado mil perigos, derrotado monstros, sido ajudado por uma fada, tudo aquilo que a gente conhece das histórias antigas que as avós contavam e que os livros trazem cheios de figuras bonitas e coloridas. Depois, viveram felizes para sempre.
Isso era o mais difícil de tudo. Viver feliz para sempre não é fácil, não. Para falar a verdade, nem é muito divertido. Fica tudo tão igual a vida inteira que é até sem graça. E eles conseguiram essa felicidade para sempre porque tiveram alguma sorte e muita esperteza. A sorte era que eles e a filha tinham saúde e gostavam muito um do outro. A esperteza era que toda vez que aconteciam problemas e aborrecimentos eles procuravam resolver, mas não achavam que eram infelizes. O Rei costumava dizer nessas horas:
- Estou preocupado, mas isso passa. Ainda bem que eu sou feliz.
E passava mesmo. Eles podiam ficar tristes, zangados, furiosos da vida, chateados, aborrecidos, até mesmo infelizes. Mas isso era só um jeito de estar um tempo. O jeito de ser era feliz.
Por isso, quando um dia apareceu no reino um problema muito sério com um monstro terrível, eles se preocuparam mas não deixaram de ser felizes. Vamos logo saber como foi isso.
Um belo dia, o Rei estava tranqüilamente passeando pelo alto das muralhas do castelo, contemplando lá embaixo a aldeia e os campos dos seus súditos, pensando:
- Que dia lindo! Está mesmo uma tarde maravilhosa, com um sol tão bonito... Acho que hoje vou ficar mais tempo aqui fora vendo o dia.
E foi ficando, ouvindo o canto dos pássaros, seguindo com os olhos o vôo das borboletas de flor em flor...
Daí a pouco, um criado veio lá de dentro:
- Majestade, Dona Rainha está chamando. Disse para Vossa Majestade vir logo tomar seu real banho, que a real banheira já está cheia e a real água vai acabar esfriando.
O Rei olhou para ele, olhou para o sol tão bonito se pondo no céu, sentiu a brisa gostosa do fim da tarde e descobriu que estava com preguiça de tomar banho. Deu suas ordens ao criado:
- Diga à Rainha que não estou com vontade de tomar banho agora. Pode jogar a água fora. Vou ficar aqui fora mais um pouquinho olhando a tarde.
O criado foi e daí a pouco voltou:
- Majestade, Dona Rainha está chamando. Disse para Vossa Majestade vir tirar sua real sujeira na água morninha da real banheira, que ela não gosta de dormir com quem não toma banho.
O Rei hesitou e resmungou:
- Diga à Rainha para ela ir tomar banho, se faz questão de aproveitar essa água. Ou então eu tomo antes de deitar. Mas agora eu quero ficar aqui olhando o dia.
Só que, enquanto o criado ia e vinha com recado para lá e para cá, o dia ia acabando, o sol ia baixando, e o Rei não estava reparando. Daí a pouco o criado voltou:
- Majestade, Dona Rainha está chamando. Disse para Vossa Majestade vir jantar, que a real comida já vai para a real mesa e está realmente deliciosa.
O Rei era meio guloso e gostava de comer bem. Quase entrou correndo. Mas, ao mesmo tempo, estava ficando muito curioso com umas coisas diferentes que estavam acontecendo na tarde - na sua real tarde. E resolveu ficar para ver melhor:
- Diga à Rainha para ir começando a comer, que eu já vou...
O criado foi e deu o recado.
O Rei ficou mais um pouco, vendo. Vendo o quê? O céu que estava mudando. Ficando cor-de-rosa, avermelhado, laranja, arroxeado... O sol mais baixo a cada instante. As nuvens de um dourado brilhante Tudo diferente, fascinante.
Lá dentro, com o recado do Rei, a Rainha chamou a Princesinha, e as duas trataram de ir começando a jantar, sentadas à real mesa, no real salão de banquetes, todo iluminado com dezenas de reais lustres de cristal, enquanto os reais músicos tocavam belas melodias. De repente, o Rei entrou aos gritos, fazendo um escândalo real:
- Socorro! Acudam! Ladrões! Bandidos! Facínoras! Biltres!
E continuou a gritar uma porção de palavras que a Princesa não conhecia, e deviam ser terríveis palavrões. Pelo menos era o que ela pensava, até que procurou no real dicionário e descobriu o que eram.
Mas na hora, só deu para ela perceber que o seu real pai estava furiosíssimo:
- Fechem todas as saídas! Ponham barreiras em todas as estradas! Cerquem o reino inteiro! Revistem todas as casas, vasculhem todos os cantos! Exijo que os ladrões sejam presos!
Aí foi uma correria. Uns saíam para um lado, outros se despencavam pelas escadas. Ouviam-se toques de clarim convocando soldados, barulho de passos de gente correndo, relinchos de cavalos no pátio.
E no meio de tudo, a voz calma da Rainha, tentando entender exatamente qual era o problema do seu adorado Rei:
- Majestadinha do meu coração, conta para mim, conta... Que foi que aconteceu, meu real amor?
Tanto ela insistiu que o Rei, finalmente, conseguiu urrar:
- Uma coisa horrível! Roubaram o dia!
Quando ele disse isso, fez se um silêncio de espanto. A Rainha e a Princesa não podiam acreditar - embora nunca tivessem sabido que o Rei mentisse. Mas não conseguiam aceitar que aquilo fosse verdade. Então alguém podia roubar o dia? Carregar o sol? Acabar com a luz?
Saíram correndo da real sala de banquetes, atravessaram rapidamente a real sala do trono, embarafustaram a toda velocidade pelos reais corredores compridíssimos e chegaram finalmente à real varanda que dava para os reais jardins. E aí, mal puderam acreditar no que viam. Ou melhor, no que não viam.
- Mamãe, que escuridão! Cadê tudo? Onde estão os jardins? A aldeia? Os campos? Tudo sumiu... - choramingava a Princesa.
- Não sei, minha filha, nunca pensei que uma coisa dessas pudesse acontecer. Mas não tenha medo, filhinha. Seu pai vai dar um jeito. Vamos lá para junto dele.
E voltaram as duas, lentamente, pelos reais corredores iluminados. Encontraram o Rei na sala do trono e confirmaram que também tinham visto o desaparecimento do dia.
Menos desesperado a esta altura, o Rei já estava resolvendo tomar reais e enérgicas providências. Como não sabia quais, mandou chamar seu Primeiro-ministro. E lhe explicou o caso:
- Hoje fiquei contemplando o sol e a tarde - que estavam realmente lindos, por sinal - e justamente no momento de maior beleza, quando mais intenso era o colorido do céu e mais brilhantes estavam as nuvens, o dia foi desaparecendo e não consegui ver quem o roubou. Exijo que o culpado seja punido! Onde já se viu? Roubar minha real luz bem nas minhas reais barbas?
E ficou brabíssimo outra vez, tendo ataques de real raiva e dizendo aqueles nomes que a Princesa achava tão divertidos:
- Famigerados! Pulhas! Esbirros!
O Primeiro-ministro esperou que a real fúria melhorasse um pouco e deu alguns esclarecimentos:
- Majestade, permita-me observar que o problema não é novo. Esse mistério se repete com desagradável insistência. Para falar a verdade acontece todos os dias...
- Todos os dias como? - berrou o Rei. - Foi hoje, agora, eu acabo de ver.
- Sim, concordou o Primeiro-ministro. - Mas já há muito tempo que esse desaparecimento do sol vem acontecendo todos os dias. E Vossa Majestade tem razão: o ladrão parece ter uma estranha predileção pelo momento mais bonito, para agir. Mas, verdade seja dita, também há dias em que, mesmo sem sol, no meio de toda a chuva, desaparece a luz.
O Rei não se conformava:
- Como é que uma coisa dessas acontece no meu reino, e eu não sabia?
- É que Vossa Majestade é um homem feliz para sempre e ninguém quis incomodá-lo com essas coisas. Afinal de contas, para que aborrecer Vossa Majestade? Devido à hora do real banho e do real jantar, Vossa Majestade e a real família sempre estavam dentro do castelo quando isso acontecia. Com todas as luzes acesas, nunca repararam que estava escuro lá fora. Com todos os reais músicos tocando, nunca sentiram a mudança do canto dos pássaros pelo dos grilos.
- Grilo? Que é isso? Já não chegam minhas preocupações, e você ainda vem me encher a cabeça de grilos?
- Perdão, Majestade. Outra hora trataremos disso com mais calma.
Dizendo essas palavras, o Primeiro-ministro foi se preparando para sair da sala.
O Rei não deixou e quis saber mais:
- Como é que eu não soube disso? Está bem, você já explicou. Eu e minha família nunca vamos lá fora a essa hora, e não vemos. Mas alguém podia ter me contado, não?
- Ninguém quis aborrecer nem preocupar Vossa Majestade, só isso. Se nós fôssemos trazer a vossos reais ouvidos todos os problemas do povo, como é que Vossa Majestade ia poder continuar a ser feliz para sempre? Aqui dentro é protegido, claro, tranqüilo... Para que Vossa Majestade quer saber de problemas e se arriscar a ter uma real dor de cabeça?
O Rei estava espantadíssimo:
- Ah, então isso é problema do povo? O povo sabe do desaparecimento do dia?
- Sabe, Majestade.
- Então chame o povo que eu quero conversar com ele. Quero que ele me conte essa história direitinho, tintim por tintim...
- Majestade, a esta hora o povo está dormindo.
- Acorde, ué... Dê uma cotucadinha no ombro dele e diga que o Rei está chamando.
O Primeiro-ministro tinha muita paciência:
- Majestade, o povo não é uma pessoa que a gente possa acordar assim.
- Então grita no ouvido dele, liga um despertador, joga água, faz qualquer coisa. Mas diga ao povo para acordar, pular da cama, calçar os sapatos e vir correndo para cá falar comigo. Estou com tanta pressa que ele nem precisa escovar os dentes...
Eu não disse que o Primeiro-ministro tinha paciência? Ele explicou com muita calma:
- Majestade, o povo não é uma pessoa, porque são muitas.
- Como assim?
- O senhor sabe o que é exército, não sabe? Não é uma pessoa. São todos os soldados juntos. Ninguém pode dar uma cotucada no ombro do exército, não é mesmo? Nem do povo...
Aí o Rei entendeu. Mas insistiu:
- É, mas se eu quiser falar com o exército, chamo meus generais e chefes guerreiros e dá no mesmo. Agora, quero falar com o povo.
O Primeiro-ministro pensou um pouco e teve uma idéia:
- Temos algumas pessoas do povo aqui no castelo. Os soldados, por exemplo. Os cozinheiros, as arrumadeiras, os mensageiros, os arautos, os jardineiros, todo o pessoal das cavalariças, enfim, a criadagem inteira. Vou mandar que eles se reúnam no pátio. E assim foi feito.
Do alto de uma sacada, o Rei olhou e viu aquela multidão reunida lá em baixo. Ficou assombrado:
- Tudo isso é povo?
- Isso e muito mais, explicou o Primeiro-ministro. Todas as pessoas que trabalham no campo na aldeia nas casas do vale tudo isso e povo.
- E todos eles sabem do ladrão do dia? - o Rei não se conformava com a real ignorância do maior mistério do reino.
- Ah, isso eu não sei - desconversou o Primeiro-ministro. - Só com eles mesmos.
Então o Rei começou um real discurso, contando tudo aquilo que a esta altura nós já sabemos: como ele tinha de repente descoberto que o dia desaparece.
Ninguém pareceu se espantar. Depois, perguntou ao povo se alguém sabia a solução do mistério, se alguém conhecia o ladrão. Foi um zunzunzum no meio da multidão. Mas ninguém falou alto. O Rei insistiu:
- Quero o nome do ladrão.
Aí o que se ouviu foi nada. Ou seja, um enorme silêncio.
- Que é isso? - gritava o Rei. - Então vocês sabem quem é o ladrão e não querem me dizer? Eu sou o Rei de vocês! O Rei! O Rei!
- Não precisa urrar, Majestade - disse o Primeiro-ministro tentando acalmá-lo. - Temos espiões no meio da multidão e num instante vamos ficar sabendo de tudo.
Dito e feito. Na multidão, ninguém falou. Daí a pouco, o Rei ordenou que todos fossem dormir.
Mas logo em seguida o Primeiro-ministro surgiu com um soldado que trazia a explicação do mistério.
Conversaram num canto e logo depois o Primeiro-ministro explicava:
- Majestade, a culpa é de um monstro terrível que assola nosso reino. Um tremendo Dragão Negro.
E diante do Rei, que tinha a real boca aberta de real espanto, o Primeiro-ministro prosseguiu com a descrição do monstro:
- E um Dragão enorme, maior que a aldeia, o vale e este castelo real. Diariamente ele chega de mansinho e rouba o dia por um tempão, até a hora em que se cansa dele e deixa o sol voltar de novo.
É imenso, todo preto de escuridão. Solta pelas narinas uma espécie de fumaça gelada parecida com nuvens e que fica assentada no fundo do vale até que o sol a desmanche de manhã. Quando abre a boca lança fagulhas pequenas que não desaparecem enquanto o dia não volta, ficam brilhando e cintilando na escuridão...
- Que horror! - exclamou o Rei.
- Deve ser lindo! - suspirou a Princesa.
- Cale a boca, menina - ralhou a Rainha.
O Primeiro-ministro olhou bem para eles, fez um ar misterioso e acrescentou:
- Mas o pior, Majestade, é o olho do monstro.
- Os olhos, você quer dizer - corrigiu o Rei.
- Não Majestade, o olho mesmo. O Dragão Negro que rouba o sol tem um olho só bem grande. É um olho que vai diminuindo, diminuindo um pouquinho cada dia de escuridão e, quando a gente pensa que no dia seguinte ele vai desaparecer todo de uma vez, nada disso, começa a aumentar, aumentar, aumentar até ficar redondo de novo. E fica sempre assim, mudando, enchendo e esvaziando uma vez por mês, com uma luz branquela que não esquenta nada e nem ilumina muito.
- Que horror! - exclamou o Rei.
- Deve ser lindo! - suspirou a Princesa.
- Cale a boca, menina - ralhou a Rainha.
Diante de tantos e tão tenebrosos perigos, o Rei tratou de fazer o que sempre fazem os reis das histórias: nada. Quer dizer, tratou de arranjar quem fizesse alguma coisa por ele.
- Ordeno que o monstro seja morto!
A pergunta que ficou na cabeça de todos era: ordena a quem? Mas ninguém falou nada para não provocar outra real fúria. Depois de alguns minutos, muito diplomaticamente, o Primeiro-ministro perguntou:
- Majestade, minha única dúvida é a seguinte: onde encontraremos alguém à altura da honra de cumprir vossa real ordem?
Mas o Rei não se atrapalhava. Ele já devia ter lido muitas histórias de reis, princesas e dragões, sabia direitinho o que dizer:
- Avise a todos que quem conseguir liquidar o monstro terá a mão de minha filha em casamento...
... continua!